Aconteceu no SINESP

"O Dia da Consciência Negra veio para desmistificar um passado idílico e a ideia de uma estrutura social harmônica no Brasil. Veio para que se olhe com mais precisão a estrutura racista pela qual foram fundamentadas as instituições no país", Douglas Rodrigues Barros, Doutor em ética e filosofia política pela UNIFESP

No dia 26 de novembro, o SINESP promoveu live - transmitida pelo Youtube e Facebook - como uma das atividades especiais do Mês da Consciência Negra. O evento teve a presença de convidados e dirigentes do SINESP e trouxe um rico debate e troca de ideias, vivências e reflexões, inclusive sobre a questão racial nas escolas públicas municipais de São Paulo.

A partir da questão ”É preciso falar sobre o Dia da Consciência Negra?”, o convidado especial Douglas Rodrigues Barros trouxe referências para compor um recorte racial na situação social, política e econômica vivida no país, considerando os componentes históricos e a formação sociocultural brasileira.

"Mais do que uma celebração, é preciso reafirmar em todo dia da Consciência Negra que o que foi construído no imaginário do brasileiro: que nós superamos o racismo. Pura falácia! Há uma tentativa de apagamento da dimensão dramática e trágica que organiza a História do Brasil e construiu as bases da nossa organização social", pontua Douglas.

"O SINESP trabalha com a questão antirracista por princípio, muito antes da lei, e busca permanentemente meios para combater o racismo", destaca Norma Lúcia Andrade dos Santos, presidente do SINESP. Tanto que sempre lutou também pela representatividade negra na composição de sua diretoria, tendo sempre representantes negros desde a sua fundação, como lembra Flordelice Magna Ferreira, entrevistada especial também convidada. Flordelice é Vice-Diretora Cultural do SINESP, gestora, professora e mulher negra

Esse é a quarta atividade que SINESP trouxe no mês de novembro com essa temática. O Cine Debate especial tratou do filme Infiltrado na Klan, de Spike Lee, o Música em Debate dedicado à música negra e ainda o curso EAD Educar para as práticas antirracistas.

"Não podemos deixar de discutir essas questões de racismo estrutural, há muita tentativa de desmonte, e o SINESP se compromete a estar nesses movimentos que lutam pelas políticas sociais para avançar nas lutas dos negros e negras e demais pessoas que são consideradas minorias', salienta Maura Maria da Silva, diretora de políticas sociais do SINESP.

"Não precisa ser negro para falar de questões raciais e não precisa ser negro para abraçar a causa de uma política antirracista", destaca Flordelice.

>>> Veja a Live Especial Consciência Negra: ”É preciso falar sobre o Dia da Consciência Negra?”

Apresentação: Maura Maria da Silva, Historiadora, Diretora de Escola Aposentada da RME. Professora de História PEB II aposentada da Rede Estadual. Diretora de Políticas Sociais do SINESP.

Entrevistados: Douglas Rodrigues Barros e Flordelice Magna Ferreira.

Mediador: Jean Rodrigues Siqueira.

Mês da Consciência Negra no SINESP

Além da live, o Sindicato promoveu o Música em debate com reflexão sobre o processo, o histórico e a lírica musical com foco na música negra e participação do músico Allan Abbadia, que já acompanhou e gravou com diversos artistas, entre eles Luiz Melodia, Nelson Sargento, Elza Soares, Wilson das Neves, Germano Mathias, Zeca Baleiro, Dicró, Toni Tornado, Emicida e Racionais MCs. 

Promoveu também o Cine Debate com o Filme “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, que narra uma história inspirada em fatos reais de um policial negro do Colorado, nos EUA, que consegue se infiltrar na organização racista Ku Klux Klan e se comunicar com os outros membros do grupo através de telefonemas e cartas. Quando precisava estar fisicamente presente em reuniões e eventos, enviava um outro policial branco no seu lugar. Depois de meses de investigação, ele se tornou próximo ao líder da seita e conseguiu sabotar uma série de linchamentos e outros crimes de ódio orquestrados pelos racistas.

Com a história na mão

O racismo estrutural e todas suas manifestações têm raizes no processo de formação da sociedade e da cultura brasileiras, tendo à frente os mais de 300 anos de escravidão do povo africano e afro-brasileiro e uma libertação não estruturada, que logrou aos ex-escravizados não mais que as margens em uma sociedade branca emergente alheia ao respeito à condição humana, acostumada a tratar os negros como inferiores.

Nesse contexto, não é possível esquecer o processo que formou o país. Por isso é tão importante o Dia da Consciência Negra, datado em 20 de novembro em homenagem à memória daquele que é considerado o principal símbolo da resistência do povo negro contra a escravidão no Brasil, Zumbi dos Palmares.

De fato, importante é todo o mês e a memória de inúmeras revoltas e personalidades negras que se relacionam a essa luta no período de escravidão e depois de uma libertação que soa como farsa, pois deu origem a um longo processo de discriminação e exclusão social que dá base às desigualdades sociais e raciais do Brasil de hoje.

Daí vem também a importância de referendar a necessidade da educação antirracista, com valorização da história da África e do flagelo da escravidão no currículo escolar e nos PPPs, bem como a reparação através de políticas públcas compensatórias que devem ser estruturadas e aplicadas com esperança de que um dia não sejam mais necessárias.

Não aos retrocessos

O Brasil passa por um momento conturbado em que o racismo está em pauta em diversas frentes.

Como nos vilipêndios e ataques aos povos originários, no extermínio da juventude negra que não para nas periferias das grandes cidades, no morticínio de mais de 600 mil brasileiros pela Covid, na maioria pretos pobres periféricos, e até nos impropérios de um racista alçado pelo governo federal ao posto de presidente da Fundação Zumbi dos Palmares, uma “instituição pública voltada para promoção e preservação dos valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”, que jamais poderia ter um racista à frente.

Zumbi, Dandara, Ganga Zumba, Tereza de Benguela, Aqualtune, Antonieta de Barros, Cruz e Souza, Mãe Menininha, João Cândido, Juliano Moreira, Lima Barreto, Machado de Assis, Luiz Gama, Milton Santos, muitas outras personalidades que honram o panteão da resistência e todo a população negra brasileira não merecem esse disparate.

Portanto, celebrar, refletir e estabelecer ações contra toda forma de racismo, discriminação, preconceito e intolerância, fortalecendo reflexões e ações entre os Gestores continua na ordem do dia.

Conheça os Entrevistados e Debatedores

DouglasDouglas Rodrigues Barros

Graduado em filosofia pela Universidade Federal de São Paulo UNIFESP (2012). Doutor em ética e filosofia política pela UNIFESP. Tem experiência em filosofia com ênfase em ética, estética e filosofia política. Investiga principalmente a filosofia alemã conjuntamente com o pensamento diaspórico de matriz africana e suas principais contribuições teóricas no campo da arte e da política. É escritor com três romances publicados e autor dos livros “Lugar de negro, lugar de branco?”, “Esboço para uma crítica à metafisica racial” (livro que lhe deu reconhecimento e prestígio como crítico antirracista) e “Racismo”.

 

JeanJean Rodrigues Siqueira

Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do ABC (2020), Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2017). Atualmente é professor do curso de Graduação em Filosofia do Centro Universitário Assunção e do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em "Filosofia e Pensamento Político Contemporâneos", "História, Civilização e Pensamento Medieval" e "História: Arte, Patrimônio e Cultura" dessa instituição, professor dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu em "Filosofia" e "Psicologia Fenomenológica e Existencial" da Universidade Estácio de Sá/Universidade Municipal de São Caetano do Sul. É mediador do “Clube de Leitura”, “Cine Debate” e “Música em Debate” no SINESP.

 

FlorFlordelice Magna Ferreira

Vice-diretora Cultural do SINESP, é Diretora de EMEF na DRE CL, pedagoga e psicóloga. Membro do CRECE Central, se empenha na construção da gestão democrática com participação efetiva da comunidade escolar.

 

 

 

 

Maura Maria da Silva                Maura 2

Historiadora, diretora de escola aposentada da RME, Professora de História PEB II Aposentada da Rede Estadual, Diretora de Políticas Sociais do SINESP.

 

 

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