Clube de Leitura Doramar ou a Odisseia

Na sexta-feira, 21 de outubro, foi realizada mais uma edição do Clube de Leitura do CFCL – SINESP pela plataforma Zoom. O livro trabalhado foi Doramar ou a Odisseia, de Itamar Vieira Júnior. Os professores Jean Siqueira e Marcos Maurício Alves conduziram a discussão com os filiados presentes.

Autor vencedor do Jabuti mostra texto vigoroso em nova obra

O debate levou a muitas respostas , mas deixou no horizonte um sem-fim de dúvidas, bem como a certeza de que a boa literatura sempre promove a reflexão e aponta para a possibilidade de inúmeras interpretações.

Doramar ou a Odisseia foi o segundo livro de Itamar Vieira Júnior discutido no Clube. Em maio e junho de 2021 o debate foi em torno do primeiro romance do autor, Torto Arado (2018), ganhador de inúmeros prêmios, livro considerado, por boa parte da crítica especializada, um “clássico imediato”. A riqueza desse trabalho de Itamar Vieira Junior fez com que, até hoje, Torto Arado tenha sido o único livro que precisou de duas edições do Clube de Leitura para ser minimamente explorado. As expectativas com esse novo livro, portanto, eram muito altas. Conseguiria o autor soteropolitano manter o alto nível literário neste livro de contos lançado em 2021?  O veredito a que chegou o grupo foi: Itamar mantém o grande nível do primeiro romance.  A forma de narrar, os personagens profundos e complexos, a linguagem poética já característica do autor, voltam à tona nos novos contos (na verdade, Doramar ou a Odisseia traz alguns contos publicados anteriormente).

A obra é composta por 12 contos. Temáticas diversas, personagens que, às vezes, se mostram aos poucos, e outras de maneira arrebatadora, vão impactando leitores, trazendo uma série de impressões sobre nossa formação social, sobre as lutas pela liberdade quase nunca individuais, mas de um povo que sofre neste país racista, escravocrata e genocida das minorias exploradas e periféricas.

Mulheres fortes e lutadoras povoam contos de Itamar Vieira Júnior

Doramar Filiados

Assim como em Torto Arado, os contos de Doramar ou a Odisseia quase nunca têm um espaço geográfico explícito; as histórias se passam num espaço brasileiro de pobreza, de dor e de sofrimento: sertão, litoral, agreste. Secas e inundações, dois polos com uma mesma dimensão terminal: a fome. Mas, embora o sofrimento seja um dos pontos que une a maior parte dos contos, muitas vezes, os personagens conseguem romper com seu destino. São figuras fortes (quase sempre mulheres), lutadoras e resistentes. O resultado da leitura pode ser um sopro de esperança. “Ainda bem que há autores como Itamar!” essa exclamação perpassou o encontro e ecoou por toda a tarde. 

Alguns contos do novo trabalho foram publicados em A oração do carrasco (2017), finalista do Prêmio Jabuti em 2018. Às breves narrativas dessa obra, Itamar acrescenta cinco outros contos que, de maneira harmoniosa, formam um todo igualmente impactante. Em quase todos os contos de Doramar ou a Odisseia há uma profusão de narradores, ora em primeira, ora em terceira pessoa que vão e voltam, que se entrecruzam e exigem dos leitores um alto grau de concentração. Cada palavra importa, cada imagem está ali por uma razão, mas nem sempre é fácil perceber essas intenções.

Sororidade e dororidade presentes nos contos enchem leitor de esperança

Magias, medos, dores e mares foram ficando pelo caminho nas vastas discussões do grupo e nas caminhadas de Alma – a personagem central do conto homônimo – certezas de seguir para um mundo diferente, um mundo de mulheres que não se calam, que se ajudam e se protegem. Itamar parece descrever o ser feminino em sua magnitude: angústias, sofrimentos, mas também desejos e ações. Cada personagem um mundo; cada mundo uma busca pela liberdade. E este talvez tenha sido o tema central de muitas das discussões do Clube de Leitura: a busca pela liberdade. Busca pela terra, pelo chão, que daria a cada um dos personagens a sua própria liberdade. Eis a essência da vida destes personagens de épocas diferentes e espaços distintos, de gêneros e naturezas diversos: negros, indígenas, brasileiros e estrangeiros lutando pelo essencial, pelo “espírito aboni das coisas”. 

E o grupo buscou encontrar as dores e lutas de tantos personagens que encantaram os presentes em mais um Clube de Leitura.

Venham se encantar também! Participem!

Doramar Capa

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