Circulação de notícia falsa, ou fake news, é desafio para as escolas e suas equipes gestoras, principalmente em ano de eleição

Aconteceu no SINESP
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fake news ileine machadoO SINESP abordará esse assunto em seu 22º Congresso, que ocorrerá entre 25 e 28 de setembro. Estudiosos, comunicadores e educadores envolvidos com o tema trarão reflexões, constatações e possibilidades de ação.

O universo das redes sociais e dos veículos de comunicação, a produção e circulação de notícias falsas, os interesses e intenções por trás delas, o comportamento de quem as reproduz, os caminhos para identificar o que é falso e o fenômeno conhecido como pós-verdade serão explorados em seus possíveis e variados ângulos.

A título de ilustração e introdução aos debates, reproduzimos abaixo texto publicado pela Folha de São Paulo sobre a discussão desse tema entre professor e alunos em uma escola particular de São Paulo.

Com eleição chegando, adolescentes têm aula sobre fake news

Os estudantes do 9º ano do colégio de classe média da zona sul paulistana Magister são categóricos em sua primeira aula sobre fakenews: não são eles que as espalham.

São os idosos e os iniciantes no mundo tecnológico os responsáveis por propagar mentiras nas redes sociais, dizem os alunos de 13 a 15 anos. 

Para testá-los, o professor mistura notícias verídicas e incorretas relacionadas à eleição deste ano. 

“Google promove pesquisa eleitoral isenta em 2018”; “Voto nulo em massa gera nova eleição”; “Quem não votou nas últimas eleições não poderá votar este ano”.

Para metade dos 54 alunos, tudo faz sentido. Mas o que as três chamadas têm em comum é que não são verdade.

“Eu sabia, só não queria falar”, dispara um. “Não sei o que eu acho”, responde outro. “Pode contar como meio [voto]? Estou na dúvida”, fala mais um. “É verdade isso? Eu ia acreditar”, questiona outro. 

Cerca de 30% dos jovens não sabem verificar se uma informação encontrada na internet está correta, diz pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil.

A aula sobre fake news é parte de uma iniciativa de escolas com material do aplicativo educacional Geekie. Participam 13 instituições —9 delas em São Paulo, com mensalidades entre R$ 700 e R$ 3.500.

“Quando eu tinha a idade de vocês, a long time ago [muito tempo atrás]...”, brinca o professor de história Pedro Sérgio, 48, que assumiu as aulas de “cidadania digital”. “Eu sempre ouvia que o [cantor] Tim Maia tinha morrido. Só que ele foi morrer mesmo uns 20 anos depois.”

Ele quer reforçar a ideia de que as notícias falsas sempre existiram, o que mudou foi a velocidade de propagação. 

E ensina quando ligar o alerta vermelho: reiteradas letras maiúsculas, erros de ortografia, pedidos de “repasse para o maior número de pessoas” e frases apelativas como “vejam esse vídeo antes que tirem do ar” ou “o governo não quer que você saiba”.

O exemplo do professor fez Rafael Ventura, 13, lembrar que já caiu numa dessas: a notícia de que o cantor Michael Jackson não estava morto. “Eu gostava muito dele. Repassei para vários grupos.” Hoje, diz que não acredita. “Mas tenho minhas dúvidas.” 

Campeã em confundir os incautos estão notícias de que o WhatsApp passaria a ser pago e de que o aplicativo mostraria quem tirou “prints” da conversa. “Eu recebi, mas nunca entro nos links. Sempre pergunto ao meu irmão [de 17 anos], que manja das coisas”, diz Maria Júlia Cardoso, 13.

Os alunos insistem, porém, na ideia de que são os “jovens desinformados, ignorantes, novos na rede” que espalham inverdades. O que não se aplicaria a eles, que têm acesso a um chromebook (espécie de notebook voltado para a internet) e levam tablets e smartphones para as aulas.

E por que as pessoas criam e espalham notícias falsas? Por vontade de criar polêmica, chamar atenção, dizem uns. Ou ainda para roubar os dados de usuários e fraudar sistemas, por meio de vírus, palpitam outros.

Nenhuma das respostas, porém, menciona o custo e o lucro da engrenagem dessas notícias ou seu poder difamatório. “Existe um produto nas fakes news, um setor da sociedade que ganha com isso. Enquanto estamos conversando, tem gente criando milhares de notícias para enganar, difamar”, diz o professor. 

Ele levanta a bola de outra possibilidade: as pessoas compartilham porque aquela notícia já corrobora sua visão de mundo. “É um conceito que talvez vocês não conheçam: a pós-verdade”, explica aos alunos, sobre a palavra do ano em 2016, escolhida por Oxford.

“Quem não gosta do Aécio vai compartilhar algo contra o Aécio”, exemplifica Lucca Manrique, 15. Quem faz isso devia receber uma multa, defende. “Precisamos saber quem está por trás e bloquear notícia fakes. A internet é muito livre”, diz o estudante.

Iniciativa do tipo foi anunciada pelo Facebook, na quinta (10). A plataforma vai iniciar um programa de verificação de notícias em parceria com agências de checagem. 

O professor Pedro Sérgio acha a iniciativa perigosa. “Não sei até que ponto a rede deve criar controle sobre o que é publicado nela.” 

“Não tem solução perfeita, ideal. Mas parte da responsabilidade por esses conteúdos é sim das empresas”, diz Claudio Sassaki, 44, co-fundador e CEO da Geekie.

Quem não pode se esquivar da responsabilidade são as escolas, defendem os dois. Sassaki diz que viu a demanda por aulas do tipo crescer no último ano. Segundo o professor, a idade ideal para os alunos começarem a aprender cidadania digital é quando já sabem ler, entre 6 e 10 anos. Muito cedo? 

“Não acho, minha prima de 4 anos tem um Iphone X já”, diz Rafael. “[O celular] virou uma chupeta”, afirma o aluno.

Fonte: Folha de São Paulo

Link para o original:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/com-eleicao-chegando-adolescentes-tem-aula-sobre-fake-news.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

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