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O SINESP chega ao vigésimo congresso da categoria pleno de vigor. Emerson, poeta americano comparou uma instituição “à sombra alongada de um homem”. Usando a mesma metáfora, o SINESP pode ser comparado à sombra alongada dos Gestores Educacionais que formam sua base: a mesma disposição para o acolhimento e para o trabalho pela educação pública.

Veja AQUI galeria de fotos do Congresso

Com o tema “Crises: riscos ou oportunidades na educação?”, o evento, muito concorrido, ocorre no Teatro Gazeta, entre os dias 23 e 26 de agosto.
A abertura solene foi prestigiada pelos sindicalistas Adelson de Queiroz, representante do Sinpeem, Celso Gianazzi, representante da Federação Nacional dos Fiscos Municipais e Gysélia Castro Pinto, Presidente do Sindicato dos Profissionais Especialistas em Educação do Ensino Público de Minas Gerais – SINDESP MG.

Também presentes, lideranças políticas identificadas com as lutas do SINESP pela educação: Deputado Estadual Carlos Giannazi (PSOL), Vereador Toninho Véspoli (PSOL), Vereador Ricardo Nunes (PMDB) e Vereador Eliseu Gabriel (PSB). Em seus pronunciamentos, os parlamentares teceram elogios ao acolhimento que o SINESP dá às causas da educação, à luta incessante pela valorização dos Gestores educacionais, à atuação do Sindicato durante a tramitação do PME na Câmara, bem como foi lembrada a relevância da criação do ISEM – Índice SINESP da Educação Municipal. Foi também unanimidade entre eles a necessidade de resistência e luta contra os ataques que as reformas propostas pelo governo Temer representam para os servidores.

A Professora Fátima Antonio, Secretária Adjunta, representando a Secretária Nádia Campeão, parabenizou o SINESP pelo vigésimo Congresso, pelo seu tema conectado à realidade presente e pela defesa que a Entidade faz da escola pública municipal.

Os Professores André Bafume, Dirigente da DRE Butantã e Valter de Almeida Costa, da DRE Itaquera saudaram os colegas Gestores em nome de seus colegas Dirigentes.

O Presidente do SINESP Luiz Carlos Ghilardi, em seu discurso de abertura, enalteceu a maturidade sindical do SINESP, que aos vinte e três anos de fundação reúne pela vigésima vez sua base num congresso (ver a íntegra do discurso neste site).

A apresentação cultural...

...ficou a cargo da “Banda Música do Silêncio”, regida pelo Professor Fábio Benvenuto, do Conservatório Municipal de Guarulhos, que atua com o projeto da banda em escolas do nosso município. A platéia emocionou-se com a performance musical dos jovens e seu exemplo de superação, por se tratarem de educandos surdos. Os aplausos vieram espontâneos e demorados.

Veja AQUI vídeo com a abertura solene do Congresso e a apresentação da Banda "Música do Silêncio"

Palestras e debates

No dia 23 o Congresso contou com a Conferência do Professor Roberto Romano (clique AQUI para ver o vídeo) e com as palestras dos Professores José Sérgio Fonseca de Carvalho (clique AQUI para ver o vídeo) e Luiz Felipe Pondé (clique AQUI para ver o vídeo).

Leia abaixo um resumo do que foi dito.

No dia 24 o Congresso prosseguiu com debates em grupos dos príncípios e lutas que nortearão o Sindicato em sua ação.

No dia 25 teve vez a palestra com o fundador da Escola da Ponte, José Pacheco (clique AQUI para ver o vídeo e veja resumo abaixo), além da apresentação das propostas para a educação dos principais candidatos à prefeitura de São Paulo, que você pode ler AQUI.

E no dia 26 foi a vez a plenária final de votação e de encerramento do Congresso, além da de evento cultural com a apresentação da peça Atividade Cultural: “Simplesmente Elis com Didi Gomes e Banda”.

Exposição de pôsteres com o tema “Projetos como oportunidades de inovação: como a escola vê esta questão”

A concorrida apresentação contou com trabalhos de várias Unidades da RME, mostrando que versatilidade e criatividade estão presentes em Projetos Pedagógicos das Unidades e em iniciativas de trabalho individual.


Veja a seguir um resumo do que disse cada palestrante:

Prof. Roberto Romano

Conferência de abertura “A noção de crise na política, na ética e na educação”, proferida pelo Prof. Roberto Romano, Professor de Ética e Filosofia da UNICAMP, Doutor em Filosofia pela Ècole des Hautes Ètudes em Sciences Sociales de Paris.

Roberto Romano começou sua conferência elogiando a apresentação da Banda do Silêncio, como projeto pedagógico que incentiva e acolhe a alteridade através da música. Lembrou que Platão define a educação como união do que foi separado, idéia retomada no Século XX. É necessário um trabalho cauteloso na educação para que haja harmonização, e a música favorece isto. “Viver em sociedade não é viver em ritmo de caça ao outro. As dores do indivíduo devem ser as mesmas do coletivo. Projetos como ‘escola sem partido’, ao contrário, separam, dividem, expulsam o outro, já começam de maneira errada”, advertiu Romano, que também condena o fato de o governo do Estado admitir que a polícia bata em jovens que ocupam escolas, sinalizando o uso da força, da caça ao outro. “Isto denota situação de crise, em que o poder público ensina a solução pela violência, em que o poder extrapola seus direitos.”

Sobre o surgimento da crise educacional, recordou que no ano de 1965 o Brasil foi considerado o pais de melhor nível educacional. Depois, com a tolerância da Universidade à privatização, veio a desagregação, a divisão técnica entre pesquisa e sociedade, até a situação dos dias atuais, em que ficamos em pé de igualdade com países dominados e os que se formam nas nossas universidades vão embora, deixando-nos privados do seu saber.

“A crise sempre aparece para a classe dominante como oportunidade de reposição de seu domínio e para os dominados como séria possibilidade de morte”, disse Romano. Ele percebe a situação brasileira como de permanente ditadura, uma vez que mesmo após a promulgação da Constituição Federal, em 1988, os apoiadores da Ditadura mantiveram-se no poder – ACM, Sarney e outros – o que resultou numa situação contraditória. Vê também a reeleição como um remendo constitucional danoso e o Congresso como detentor de grave ambiguidade, uma vez que nossos parlamentares se definem como representantes de lobbies e não do povo – bancadas ruralista, da bala, do ensino privado – o que impede qualquer melhoria pública, de interesse da nação.

“A tradição de golpe do poder legislativo é muito antiga no país, passa pela constituinte até os atuais representantes de grupos no parlamento, há uma cultura do golpe que se manifesta em casos de crises políticas e econômicas”, disse Romano.

Assim com Hipócrates apontou sinais de crise nos mortais e a necessidade da ação certa no momento certo para vencer a morte, também no campo social e político é preciso o momento certo da ação, disse Romano. “Perceber o momento certo para agir é necessário. Há vinte anos atrás, o Estado francês foi alertado do abandono das escolas da periferia, onde vivem oriundos de países colonizados; sem receber os recursos necessários, seriam reservas de ação violenta, a bomba estava armada”, lembrou Romano dando exemplo dos danos causados por políticas discriminatórias, que levam à luta de todos contra todos.
Embora julgue que nenhum Estado moderno possa cumprir as promessas que faz, admite que no Brasil a situação é mais grave porque não temos democracia duradoura, nossas normas jurídicas são impostas, sem respeito à alteridade cultural. “Aqui reina a centralização delirante, somos reféns do poder federal e de oligarquias que o sustentam; a prerrogativa de foro privilegiado é um exemplo, pois não permite a responsabilização pública”, disse Romano, advertindo que em junho de 2013 o povo nas ruas tocou em pontos importantes, transporte, saúde, educação, mas foi silenciado pelas classes políticas.
Romano atribuiu a responsabilidade da atual crise nacional a grupos financeiros que não querem se submeter a regras: “Lula favoreceu o sistema financeiro, exigindo que investisse na indústria. Dilma reduziu seus impostos sem exigir contrapartida, levando o dinheiro para o bolso dos milionários, que o aplicaram em letras do tesouro dos Estados Unidos, conforme anunciou o jornal Valor Econômico.”

“Para os hipocráticos era preciso conversar com o doente para obter a cura”, finalizou Roberto Romano. “O doente hoje é a sociedade brasileira, que precisa ser ouvida, para não sucumbir ao poder das autoridades. Não teremos saída sem uma Assembléia Nacional Constituinte, sem o fim do privilegio das autoridades políticas, sem ouvir e dar à população oportunidade de falar, administrar prioridades, destinar recursos, sem dialogar com a diferença e a democracia. O ponto central para sair da crise é saber conhecer e reconhecer os sinais. Na educação os sinais estão nas falas e nos corpos das crianças”.

José Sérgio Fonseca de Carvalho

Palestra “A crise na educação e a dignidade da experiência escolar”, proferida pelo Prof. José Sérgio Fonseca de Carvalho, Mestre e Doutor em Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo, onde leciona.

O Professor José Sérgio começou pontuando mudanças de sentido na palavra crise: “na atualidade a palavra crise tem um sentido restrito, presente nos discursos econômicos, para descrever desequilíbrio e declínio, mas ela tem origem remota, remete-se ao Século II AC, empregada no âmbito legal, militar e médico. Tinha sentido de separar, selecionar, escolher, distinguir, discernir o falso do verdadeiro, tomar decisões que levem à justiça ou à injustiça, como no episódio bíblico de Salomão e as duas mães. É o momento oportuno para o diagnóstico que leve à cura ou à morte, na acepção hipocrática.”
Lembrou que Ana Arendt define crise como “oportunidade de explorar e investigar a essência de tudo aquilo que foi posto a nu”, postura que obriga a voltar às velhas questões em busca de novas respostas. “A crise só se torna uma tragédia quando respondemos a ela com juízos pré-formados”, disse José Sérgio, advertindo que ignorar a crise aguça-a ainda mais.

Na educação, a resposta à pergunta “para que estudar?” deveria ter novas respostas nos dias de hoje, mas perdemos a resposta sobre o sentido de educar. “O que abalou nossa confiança foi aceitar as coisas como fato consumado, de forma acrítica”, disse José Sérgio, dando como exemplo o discurso de que a escola é reprodutora da desigualdade, proposição da qual discorda. “Educação é instrumento de dignidade, a maior escolarização das mulheres reduziu a mortalidade infantil, hoje a universidade tem negros como estudantes, a população tem clareza do valor da educação, em 2013 a escola estava presente nas manifestações estudantis”, disse o Professor.

Ainda citando Ana Arendt, enfatizou que “o futuro nem sempre é melhor que o passado”. Na visão restrita dos economistas, todas as coisas têm preço, “mas os seres humanos não têm preço”. Nesse sentido, convidou os educadores a não se submeterem ao domínio econômico: “os secretários da educação geralmente são economistas, que nem sempre conseguem prever as crises, como a de 2008. Na verdade, os economistas é que deveriam fazer políticas de inclusão econômica, não a escola, que deveria ter como objetivo produzir sentido para a vida. Numa sociedade desigual, a escola é o único lugar em que se pode viver a experiência da igualdade, cotidianamente vemos exemplos nesse sentido”. Finalizou dizendo que o ser humano é capaz de produzir milagres, “num ambiente violento nasce Mandela e rompe com tudo aquilo que se esperava dele; alunos ocupando escolas foi um movimento parecido, inesperado, impensável até então. É preciso recuperar a dignidade da escola, tornar a experiência escolar mais rica, na busca da dignidade humana”.

Luiz Felipe Pondé

Palestra “Geração Y e a busca de significado na vida profissional” proferida pelo Prof. Luiz Felipe Pondé, Doutor em Filosofia pela Universidade de Paris e pela FFLCH da USP, Professor Titular da Fundação Armando Álvares Penteado.

Na TV ou nos artigos que publica o Professor Pondé expressa opiniões sem a busca de aprovação e sem receio da crítica. Talvez venha do modo direto e incisivo como se comunica sua empatia com a juventude. Começou a palestra falando do sentimento de reconhecimento criado pela mídia, uma vez que as pessoas se dirigem a ele como se já o conhecessem anteriormente. Sua relação com os jovens se intensificou através das redes sociais, com trocas de mensagens muitas vezes diárias. Chegou ao magistério por necessidade, dando aulas de inglês, e hoje assume que gosta da profissão, embora ache que “a escola tem muita expectativa sobre o trabalho do professor”.

Pondé vê a publicidade como o campo mais ágil na análise de comportamento, pois trabalha premida pelo mercado, pela conquista de clientes que possibilitam e intensificam seu domínio. “Nesse ambiente competitivo e rápido surgem as principais pesquisas de comportamento, que procuram saber para onde está indo o desejo das pessoas e dos grupos”, disse ele. Estudar como se diferenciam os jovens quanto à moda, a estética, os desejos, os sonhos e agrupá-los, foi a grande sacada da publicidade americana. Daí surgiu a classificação em gerações: a “baby boomers”, do pós guerra, com padrão de vida estável, apreciadora da qualidade; a geração X, nascida entre 1965 e 1977, que sonha com a ruptura de regras e valores das gerações anteriores e busca por direitos e liberdade; a geração Y a partir dos anos 80 e a geração G, hoje com 15 anos.

Mapeando os traços da geração Y, Pondé a define como “um grupo social com muito repertório, ganha muito e gasta pouco, pois não estabeleceu família, nem vínculos ;afetivos duradouros, larga o emprego com facilidade, por motivos banais, pois conta com estrutura econômica dos pais para isso; é apressado, impaciente, curioso, sua vida gira em torno do celular.” Esta geração sofre pressão social, é instada a ensinar os “velhos”e tem por parte dos pais a expectativa de que seja mais “evoluída”. Sente-se feliz em empresas sem hierarquização rígida, não reconhecem ambientes de trabalho tradicionais. Comunica-se de forma pragmática através de mídias sociais que não deixam marcas, Instagram, WhatsApp, e não o Facebook, por exemplo. Apresentam certa desorientação quanto aos papeis sociais, são imediatistas e apresentam distanciamento com a vida adulta. O jovem da geração Y de classe social mais baixa orienta a família nas compras de objetos tecnológicos.

“Trabalhar com esta geração”, finalizou Pondé, “é entender esse mundo narcísico”.

José Pacheco

Ele só começa palestra se houver pergunta. Provoca a primeira gargalhada da platéia, ao lembrar-se de um dia, em 2001, quando participava de uma mesa com Ruben Alves e mais ninguém o conhecia. Levou o moderador da mesa ao desespero quando este lhe perguntou qual era o texto da palestra e ele respondeu que não tinha texto, pois só falaria se houvesse pergunta.

O jeito despojado e informal de José Pacheco conquistou corações e mentes dos congressistas do SINESP. Não se considera educador português uma vez que há quinze anos escolheu o Brasil para trabalhar e viver: “Se Portugal é minha Pátria, o Brasil é minha Mátria”, diz à espera da pergunta, que veio depois de muitas brincadeiras e provocações de Pacheco: “Por que é tão difícil mudar em educação?”. Só então começou a palestra.

Há cinquenta anos o mundo da educação se pergunta porque é tão difícil mudar. Para ele, o primeiro obstáculo é a cultura profissional, que insiste no modelo “aula” para ensinar, e numa aula nada se aprende. Há quarenta anos deixou de dar aula para aprender e após inúmeros cursos e pesquisas concluiu que há formas mais atuais de ensinar, como projetos, seminários, tertúlias. E sempre com foco no interesse de quem aprende. “Aula no século XXI é um escândalo”, diz Pacheco.

O segundo obstáculo é o isolamento profissional. O maior aliado do professor é o seu colega – e também seu pior inimigo. Reelaborar a cultura escolar é juntar-se a outros profissionais, em grupos pequenos, ajudar-se mutuamente, tocar projetos conjuntos. Quando inicia o trabalho em uma escola ele procura, no projeto de pesquisa, conhecer as pessoas, o lugar, mapeia os recursos de aprendizagem da comunidade. Depois conversa com os educadores, conhece seus projetos de vida profissional. Educação é interação, relacionamento humano, confiança mútua, só desta forma se criam comunidades de aprendizagem.
Outro obstáculo é a formação profissional, porque está equivocada, e a universidade é o maior obstáculo à mudança. Na formação está presente o conceito do isomorfismo, como se todos aprendessem da mesma forma. “É preciso que aprendamos como se aprende, quais são os processos de aprendizagem”, disse ele, que estudou o assunto em profundidade. “Há também o pressuposto que teoria vem antes da prática, mas são concomitantes, ensinagem e aprendizagem andam juntos”.

Sobre o papel do Diretor e do Coordenador Pedagógico na mudança, foi enfático: “a função de todos é educar, escola pública é aquela que a todos acolhe e faz aprender”.

Ao finalizar, Pacheco citou vários educadores brasileiros ilustres e afirmou que “no Brasil está a semente da nova educação para mundo, novas construções de aprendizagem”. E fez um convite aos educadores brasileiros: “Vamos deixar de importar modas pedagógicas e visitar o Brasil, conhecer nossos projetos, como o projeto Alta Independência em Petrópolis, Rio de Janeiro, o projeto Âncora, em Cotia, São Paulo, o projeto Lageado em Belo Horizonte, e tantos outros que temos no nosso país”. Lembrou também que Lauro de Oliveira Lima foi o primeiro educador no mundo a propor as comunidades de aprendizagem, hoje tão presentes na educação.

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