Fake news e pós-verdade: o papel do WhatsApp na circulação de notícias falsas e na crescente manipulação da opinião pública via redes sociais

Aconteceu no SINESP
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fake news ileine machadoVocê será um eleitor-cobaia manipulado pelos grupos de WhatsApp? O pânico, a paranoia e a desinformação distribuídos pelas mensagens compartilhadas durante a greve dos caminhoneiros foram apenas uma pequena amostra do que nos espera na campanha eleitoral deste ano.

O artigo abaixo debate a questão, que está inserida no tema do 22 Congresso do SINESP, nos dias 25, 26, 27 e 28 de setembro. Estudiosos, comunicadores e educadores envolvidos com o tema estão sendo convidados para trazer reflexões, constatações e possibilidades de ação para os Gestores Educacionais.

O universo das redes sociais e dos veículos de comunicação, a produção e circulação de notícias falsas, os interesses e intenções por trás delas, o comportamento de quem as reproduz, os caminhos para identificar o que é falso e o fenômeno conhecido como pós-verdade serão explorados em seus possíveis e variados ângulos.

Veja a seguir o artigo publicado no Blog de Leonardo Sakamoto, no UOL:

Você será um eleitor-cobaia manipulado pelos grupos de WhatsApp?

Um naco significativo da sociedade brasileira está ultrapolarizado, achando que verdade é só aquilo em que já acredita. Boa parte da população se informa através de mensagens trocadas por um aplicativo que opera sem transparência alguma, preferindo acreditar em boatos compartilhados pela família do que em fatos comprovados em matérias.

A capacidade de interpretar conteúdos recebidos por terceiros é baixíssima, seja por deficiência na educação formal, seja pela falta de alfabetização para a mídia. As pessoas não se veem como responsáveis por aquilo que circulam, pelo contrário, quanto mais polêmica e sensacionalismo, melhor. Outros, conscientes, ao se depararem com conteúdo falso, ficam em silêncio desalentado, acreditando que corrigir é inútil.

O pânico, a paranoia e a desinformação distribuído pelas mensagens compartilhadas durante a greve dos caminhoneiros foram apenas uma pequena amostra do que nos espera na campanha eleitoral deste ano.

Aliás, parabéns a quem compartilhou áudios de falsos militares afirmando que haveria um golpe iminente. Você ajudou a piorar o país. Se bem que, sinceramente, quem repassa algo assim é incapaz de entender o que acontece à sua volta, não se importa ou acha que realmente eu acabo de dar parabéns a ele.

A quatro meses das eleições, é possível afirmar que o WhatsApp será usado para manipular, de forma contundente, os resultados pela circulação de desinformação. Tudo na penumbra, pois se – por um lado – o Facebook prometeu mudar suas políticas e não permitir que conteúdo seja distribuído apenas a grupos específicos, no WhatsApp isso não deve acontecer.

Enquanto isso, partes da política e da Justiça estão propondo ideias esdrúxulas, como a criação de perigosas leis para punir ''notícias falsas'' que, na verdade, dão ao Estado o poder de decidir o que é verdade e o que é mentira. Ou de criminalizar qualquer reportagem ou opinião que desagrade os donos do poder.

É claro que prefiro o aplicativo em funcionamento – seria idiota defender o contrário. Bloquear o WhatsApp é equivalente a suspender uma camada de interação social. Afinal, não foi o WhatsApp o responsável por protestos no Cairo, em Istambul, em Madrid ou a greve dos caminhoneiros, mas ele catalisa processos através da otimização do tempo e do encurtamento de distâncias e o que levava semanas agora ocorre em minutos.

Muitos governantes, parlamentares e magistrados têm dificuldade em assimilar como isso funciona. Acreditam que é apenas um canal para fluir informação ou que redes sociais funcionam como entidades em si e não como plataformas de construção política onde vozes dissonantes ganham escala, pois não são mediadas pelos veículos tradicionais.

Se o debate público fosse mais qualificado, a pessoa se sentiria motivada a ler mais até para não ser humilhada coletivamente nas redes e aplicativos ao expor argumentos ruins, preconceituosos e superficiais. Ou para responder groselha em uma cantada na balada. O discurso violento e opressor – mais palatável e que mexe com nossos sentimentos mais primitivos e simples – ecoa e repercute. Esse discurso basta em si mesmo. Não precisa de nada mais do que si próprio para ser ouvido, entendido e absorvido.

No médio prazo, precisamos repensar o ensino para melhorar o debate público. Enquanto isso, daqui até as eleições, quem ajuda mediar o debate público (como a mídia) precisa ajudar a qualificá-lo o melhor possível, na forma e no conteúdo. E quem dele participa, a exemplo dos políticos, deve baixar o tom e desconstruir essa ultrapolarização.

Para certas pessoas, uma mensagem anônima no WhastApp é mais agradável que cinco minutos de reflexão solitária – pois nunca se sabe aonde a autocrítica pode nos levar. Dissolver-se no coletivo e deixar que as decisões sejam tomadas pela massa me parece desesperador. Mas cair no fluxo e ser levado por ele tem sido a saída encontrada para muitos que estão assustados como o mundo e suas mudanças. Querem as coisas funcionando e qualquer mensagem que prometa uma saída rápida e violenta para tanto é recebida e compartilhada. O problema é que, no limite, isso destrói pontes e desumaniza o outro.

O apocalipse, ao que tudo indica, vai estar asfaltado com tiques azuis.

Veja AQUI a publicação original.

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